quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Em Um Porão Escuro





Virava de um lado a outro na cama e não conseguia dormir. Insônia. Muita insônia!
Estava com uma forte dor no pescoço com tendências a descer para os ombros. Nunca tive dores dessa natureza, e muito menos tão contundentes. Virava o pescoço de lá pra cá, para amenizar a dor mas era inútil.
Devo ter dormido de mal jeito esses dias, não sei.
Então, com um só olho aberto, tentei achar naquela escuridão, o reloginho no criado-mudo, daqueles que o ponteiro brilha no escuro. Marcava 03:20 h. Respirei fundo pelo agudo esforço à chegar até testemunhar o horário, e logo bufei ao me jogar na cama como o homem vitruviano.
Havia somente um feixe de luz que vinha da rua. A janela estava entre aberta. A brisa era agradável. Estávamos em maio.
Me espreguicei, me estiquei e voltei à ficar de conchinha. Imaginando as belas pernas de Rose. A mocinha da lanchonete da cidade. Imaginava todos aqueles detalhes, curvas por curvas, sua simpatia e sorriso.
Comecei a pensar num plano de como abordá-la. Fiquei nisso uns sete minutos, mas logo me levantei. Tinha um trabalho à fazer.
Me vesti com meu roupão azul marinho e minhas pantufas da mesma cor, que no qual, foi um presente de mamãe.
Cruzei o quarto, passei o corredor, e fui até a última porta à direita. Em meu porão.
Abri a porta, e sempre que abro esta porta me entristeço demais, pois vejo as marcas das cabeçadas deixadas por Danny ou Kanny, não me lembro o nome daquela vadia. Fudeu toda minha porta. (Vide o conto Porta Maciça).
Liguei o interruptor, mas a luz não acendia. Desliguei, tornei a ligar, e nada!
Podia ter queimado ou algo assim. Continuei a descer as escadas.
Na mesa principal de trabalho, ao lado do freezer, havia uma caixa de ferramentas, e ali, havia algumas velas. Acendi umas três, e as fixei no candelabro.
Dentro de uma caixa de papelão ao lado da mesa, haviam algumas ossadas em que eu precisava trabalhar, lapidar, etc.
Comecei a lixar um crânio humano para fazer uma taça. A lixava de um lado a outro até conseguir a forma.
Após finalizar o trabalho, depois de uns vinte minutos, a lustrei e deixei secar.
Agora era a vez de Emy. Coloquei seu corpo na mesa e comecei a serrar seu tronco. Mas na verdade, não me lembrava se era de Khristie ou de Carla. Bem, dei de ombros.
Meu pescoço não me dava trégua.
Trabalhava e trabalhava sem interrupção. Por um bom tempo, comecei a reparar no silêncio do porão. Estava muito quieto.
Mesmo os gritos da boca selada de Frida com fita adesiva de dentro do baú, eram quase inaudíveis.
Resolvi ligar o rádio que estava ali do lado. O rádio do meu velho pai.
Liguei, mudei algumas estações, o barulho de interferência entre elas, até encontrar uma bela música. Aumentei o volume.

(Caro leitor, clique em play no áudio abaixo enquanto segue sua leitura).















Era agradável. Espontânea. Bela voz.
Bem, agora, eram somente eu, a bela música e Emy.
Seu tronco já estava serrado, mas agora precisava costurar a máscara de pele morta.
Peguei a máscara, uma agulha, linha e comecei o serviço.
Com a agulha grossa, perfurei o tecido, uma vez, duas vezes, e assim foi de uma ponta à outra.
Uma virada aqui, uma virada ali, fui dando forma a minha bela máscara de pele morta, que no qual, já estava um tempo de molho e precisava terminar o quanto antes. Essa música me anima um bocado, assim logo terminarei.
Cortei nas pontas, amarrando-as para não soltar.
A firmei em meu próprio rosto para ver a simetria.
Me olhei em um espelho e de uma virada a outra vi toda a extensão da máscara no molde de meu rosto. Estava ótimo.
Faltava fazer a peruca, mas ainda não tinha tirado o couro cabeludo de Emy da água fervente. Não era prioridade no momento.
Mas como a dor no pescoço era latejante, deixei a máscara na grande mesa de trabalho, levantei o olhar para o teto e comecei a virar o pescoço de um lado a outro, como se quisesse estralá-lo para amenizar a dor.
Respirei fundo tomei mais um pouco do meu chá de camomila e continuei a costurar a máscara com o rosto de Emy. Agora próximo às extremidades do buraco da boca. Muito detalhe aqui.
Com uma agulha menor e linha da cor preta comecei a dar forma.
Em um porão escuro com uma bela música para se ouvir, logo entendi o porque da dor de pescoço:
Estresse e má postura deixam os músculos da região cervical tensos e doloridos.
Preciso comprar uma serra elétrica ou sentar corretamente enquanto estiver serrando alguma puta.
O dia nascia lá fora...

Nenhum comentário:

Postar um comentário