sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Susan, a Funcionária do Mês

















Era inverno.
Após meu despertador berrar as oito horas, me espreguicei por alguns segundos e sentei na cama. Ainda de olhos fechados, cocei um pouquinho o dorso lateral esquerdo, esfreguei os olhos com outra mão e me pus de pé. Calcei meus relax slippers, pus meu roupão de cor marrom e os amarrei enquanto me dirigia à cozinha.
Fui à despensa, à geladeira, ao cesto da mesa de jantar e não havia nada. Precisava fazer umas comprinhas.
Já passava das 8:22h.
Me agasalhei, coloquei um goro, luvas e ao abrir a porta principal fui surpreendido por um vento forte e gelado. Entrou sem ser convidado.
Meu porão estaria em segurança, já que eu demoraria só alguns minutinhos.
Me encaminhei até o mercado do bairro, o único mais próximo de minha casa. Estava muito frio. Noite anterior havia caído neve.
Papai havia morrido há um ano. Meu irmão jaz alguns meses. Mamãe se foi há duas semanas. Eu estava sozinho no mundo. Totalmente sozinho.
Na vizinhança, eu não tinha nenhuma amizade. Me chamavam de aberração e permaneciam longe de minha companhia. Eu me sentia sozinho e triste.
Mamãe sempre dizia: "Pequeno Charles, querido. Nunca confie em mulher nenhuma, meu benzinho. Elas só querem se aproveitar de você. Há muita pornografia no mundo meu bem. Elas só pensam em sexo e safadeza, e isso é do diabo. Isso é do mal. Pequeno Charles, querido. Nunca confie em mulher nenhuma".
Ao chegar na padaria do mercado, pedi alguns pães, brioches e broa de fubá. Na gôndola de utensílios gerais, algumas velas, sacos de lixo e panos de prato.
Já no balcão, fui bem recebido.
-Bom dia senhor. - A atendente me saudou, apontando para os cigarros. - Estão na promoção.
-Não, obrigado. Cigarros fazem mal à saúde. - Respondi olhando para meus sapatos.
Ela riu.
-Do que ri...Susan. - Era o que estava escrito no pingente em seu pescoço.
-Nada não. - Encontrou tudo o que o senhor queria? - Susan perguntou com um sorriso no rosto, seus olhos grandes castanhos amendoados e seu rosto sedoso e pele branquinha. Fiquei fascinado por aquela beleza. Seu cabelo era castanho encaracolado.
-Sim, obrigado. - Respondi.
-O senhor é novo na cidade? - Susan perguntava enquanto passava as compras no leitor de código de barras.
Só havia eu na fila, portanto ela fez tudo sem pressa alguma.
-Não. - Respondi secamente.
-Nunca vi o senhor por aqui. Você costuma vir aqui muitas vezes? Qual seu nome? - Susan perguntava despretensiosa e com educação.
Charles ao ouvir aquilo, respirou fundo e logo veio a imagem de sua falecida mãe na mente. O tempo parou.
"Pequeno Charles, querido. Nunca confie em mulher nenhuma, meu benzinho. Elas só querem se aproveitar de você. Há muita pornografia no mundo meu bem. Elas só pensam em sexo e safadeza, e isso é do diabo. Isso é do mal. Pequeno Charles, querido. Nunca confie em mulher nenhuma".
Charles ouvia repetidamente aquelas palavras. "Nunca confie em mulher nenhuma, meu benzinho".  "Elas só querem se aproveitar de você". "Elas só pensam em sexo e safadeza".
Ao voltar de nunca tinha saído, Charles perguntou à Susan.
-Ei, é você ali naquele quadro? - Perguntei apontando à ele.
-Sim.- Susan pôs as mãos na boca como se quisesse esconder o riso. - Sim sou eu. Fui a melhor funcionária do mês. Bati todas as metas. Eu e minha família viemos do interior, não temos muitos recursos, por isso eu faço o melhor que posso.
Ao ouvir aquilo, e sem reação perguntei.
-Ei, escute...Susan....que horas você sai do serviço?
-Hummm...porquê, senhor? - Susan perguntou ao virar o pescoço sutilmente para mim, com um sorriso terno no rosto.
-Me diga....Que horas você sairá?
-As sete. - Respondeu sutilmente passando os dedos nos cabelos.
-Perfeito. Voltarei para te buscar. - Respondi. - Quer ver minha coleção de martelos, cutelos, bastões de baseball e facas? - perguntei com um sorriso paranoico no rosto.
- Uauuu. Você tem tudo isso é? - Susan retrucou surpresa. - Que coleção mais perigosa! Eu adoraria.
-Tudo bem.
-Você vai cuidar bem de mim? -Susan perguntava sutilmente com voz suave e tom de auto punição.
-Sim, com certeza! - Respondi com um sorriso sem mostrar os dentes.
-Então, tchau...até hoje a noite! - Sorriu mais uma vez. - Seu nome é...? - Ela perguntou quando eu já estava saindo do mercado.
Parei e virei para ela. A fitei por alguns segundos. Nos entreolhamos.
Charles ouvia repetidamente aquelas palavras. "Nunca confie em mulher nenhuma, meu benzinho".  "Elas só querem se aproveitar de você". "Elas só pensam em sexo e safadeza".
Não respondi e continuei a caminhar.
Enquanto outros clientes chegavam e recebiam a mesma saudação "Bom dia".
--
Dias depois quando voltei ao mercado, ouvi o repositor e o gerente do mercado conversando próximo ao caixa que Susan trabalhava. Enquanto eu os ouvia em silêncio, eu escolheria qual sabonete levar.
Todos estavam preocupados pois não sabiam onde Susan estava. No telefone ela não atendia, em sua casa ela não respondia, na vizinhança ela não era vista. Todos estavam apreensivos e preocupados, pois Susan era uma boa moça, moça de família, e ninguém sabia seu paradeiro.
Passei minhas compras com outro atendente.
Enquanto isso, fitei ambos, o repositor e o gerente do mercado, acenei com a mão e disse bom dia. Ambos responderam mas logo continuaram preocupados sobre o paradeiro de Susan. Seus semblantes estavam realmente preocupados. - Onde ela está, meu Deus?
Antes de ir embora, coloquei minhas compras em uma sacola de mão e perguntei a atendente que passou minhas compras.
-Ei...qual seu nome?
-É Rebecca, senhor!
-Humm.Tudo bem. Bom dia Rebecca....e obrigado. - Respondi com um sorriso no rosto e fitando seu pescoço magro e de boa pele morena.
-Bom dia. Obrigado ao senhor também.
Eu continuava a caminhar tranquilamente mas não conseguia me segurar, comecei a rir no canto de boca e dizia bem baixinho.
"Estou chegando para lhe acariciar do que sobrou de seu  belo rosto, querida Susan". Estou chegando....



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