quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

A Porta Maciça
























As cinco e meia da manhã acordei com barulhos vindo do meu porão. Até tentei voltar a dormir mas os sons eram contínuos e secos (pô...pô...pô...), e isso me deixou extremamente irritado. 
Sentei e com os punhos cerrados na cama, o olhar fixo no chão, já imaginava do que se tratava.
Puxei o ar com força e me pus de pé.
Vesti meus chinelos, o roupão azul marinho e desci até o subsolo.
Chegando lá, tirei o molho de chaves do bolso e ao abrir a porta, percebi que a vagabunda se debatia com toda força mesmo amarrada. 
Acordou do sossega leão que eu havia dado à ela. 
Com a respiração ofegante e totalmente desnorteada, se escorou no canto da parede fria e chapiscada.
-Mas ela continua amarrada das mãos aos pés com o enforca gato. - Pensei.
Estava batendo a própria cabeça na porta maciça, já fazia um bom tempo.
Realmente não sei como ela aguentou.
Agachei, cheguei próximo à ela e tentei tirar os cabelos da frente do seu rosto. Ela rejeitou.
Não parava de se debater e não me deixava analisar a situação. 
Tranquilamente eu disse:
-Fique quieta! - Puxando-a pelo cabelo.
Na mesma hora, ela cessou. Estava exausta.
Sua testa em carne viva. O osso frontal estava quase exposto de tanto batê-la na porta maciça. Havia um rasgo bem no meio. Parecia uma vulva com lábios inchados.
Amordaçada, chorava compulsivamente. 
O olhar pedinte e brilhante, suplicava ajuda. Suas pupilas dilatadas, seu rosto mostrava dor e clemência. Soluçava enquanto tentava falar.
- Por favor.... me deixe ir....me deixe ir...por favor.
O cheiro úmido e frio do porão era nauseante. Pois ali, algumas semanas atrás, já havia retirado algumas partes do dorso de Lily, e os restos que não usei joguei fora. Porém esqueci de recolher o lixo. Que estava alguns metros de nós. 
Virei para trás e testemunhei com minha mão o que ela havia feito em minha porta maciça. Estava com avarias que precisavam de conserto. Além de estar toda ensanguentada e ter partes da testa dela grudados.
- Belo estrago heim, mocinha!? - Murmurei.
Segurei seu rosto com minhas duas mãos, ela o deitou como se quisesse descansar daquele pesadelo.
-Ei....ei...? - Disse ao procurar seus olhos nos meus.
Ela não me respondia e se retorcia sem parar.
Segurei com firmeza seu rosto, olhei bem no fundo de seus olhos e ao mesmo tempo que dividia a frase em pausas, eu batia com sua nuca na porta.
- Não ... bata ... mais ... a ... cabeça ... em ... minha ... porta!
(pow...pow...pow...pow...pow...pow...pow...pow...)
Levantei, peguei o molho de chaves do bolso e tranquei a porta.
Fui para a cozinha.
Os sons haviam cessado. Aguardei mais alguns minutos.
Enquanto fervia um pouco de leite, buscava alguns cookies de chocolate no armário. 
Com meu café da manhã em mãos, fui até a vitrola, liguei na ópera. 
Sentei em minha poltrona azul, e com o café da manhã e a ópera, tive uma belo momento de prazer.
Depois de um certo tempo, resolvi dar um passeio.
Me troquei, coloquei meu casaco, meu gorro, minha bota e fui em direção a porta da frente.
Nevava muito lá fora, o inverno estava no ápice.
Fechei o colarinho, pus minhas mãos nos bolsos e fui fazer meu passeio matinal pelo bairro. 
Sem motivo algum.
Ao caminhar, algo me chamou atenção em um poste. Me aproximei e comecei a lê-lo.
Era um anúncio procurando uma certa garota que havia desaparecido sem rastros no bairro. Com telefone e recompensa. 
Voltei a caminhar.
Observava com atenção as fumacinhas que saiam de minhas narinas enquanto descia a rua principal.



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