sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

O Beijo Fatal

"Junte seus sapatos,
Conte as gotas de sangue no chão,
Supra suas necessidades maternas.
Envolva-os de carinho,
Enquanto você chora.
                x x
Tenha um crucifixo em mãos,
Seu órgão da vida, desejado,
Faz de você a anfitriã desta noite,
Quebre os laços dos sete pecados...
...e viverá para sempre."

Trecho do poema, "O Beijo Fatal" do poeta, Cyrus "Fritz" Metzger.
Alemanha, Século XVII
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Após recitar este trecho do maravilhoso poema do grande Metzger para Maryane, decidi fazer o mesmo com ela. Faria exatamente como constava no poema "O Beijo Fatal".
Eu já havia juntado meus sapatos ao lado da cama, como de costume. Havia cortado o meu próprio dedo indicador. Havia contado sete gotas pelo corredor da casa, coincidênica ou não? Seria a remissão dos meus pecados?
Marriane me disse que gostaria de ser mãe enquanto suplicava pela vida. Então a fodi...a fodi sem sua permissão mesmo. Não é o que ela queria?
Acariciei seus cabelos lentamente, ela chorava.
-Está tudo bem, querida! Por favor, não chore! - Eu dizia lentamente.
Ela carregava consigo um crucifixo em seu pescoço.
Eu estava em êxtase. Estava vivenciando o que o grande Cyrus escrevera séculos atrás.
Maryane estava fascinante, era a dama da noite.
A obriguei vestir o vestido de noiva que era de minha falecida mãe. O vestido coube muito bem.
Fizemos uma prece a deus para que nossas almas fossem salvas por nossos pecados e tirei a faca de minha cintura.
Maryane não estava mais comparecendo a minha festinha particular.
Depois de ficar amarrada por quatorze horas, ela estava sem forças até para gritar.
Em seu último suspiro, ela ajoelhou em minha frente se debruçou em minhas pernas.
-Olhe para mim. -disse calmamente.
Ao levantar a cabeça e me olhar nos olhos com seu olhar desesperador, desfiei minha faca em seu pescoço. Cortando-o de ponta a ponta.
Rápido....Indolor....Certeiro....
Só faltava agora, o último trecho do poema.
O belo beijo em sua testa fria.
"Boa noite, Maryane".
O beijo fatal.
Ato consumado.


Curiosidades:
Cyrus, alusão ao nome Vírus
Metzger significa açougueiro em alemão

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

A Porta Maciça
























As cinco e meia da manhã acordei com barulhos vindo do meu porão. Até tentei voltar a dormir mas os sons eram contínuos e secos (pô...pô...pô...), e isso me deixou extremamente irritado. 
Sentei e com os punhos cerrados na cama, o olhar fixo no chão, já imaginava do que se tratava.
Puxei o ar com força e me pus de pé.
Vesti meus chinelos, o roupão azul marinho e desci até o subsolo.
Chegando lá, tirei o molho de chaves do bolso e ao abrir a porta, percebi que a vagabunda se debatia com toda força mesmo amarrada. 
Acordou do sossega leão que eu havia dado à ela. 
Com a respiração ofegante e totalmente desnorteada, se escorou no canto da parede fria e chapiscada.
-Mas ela continua amarrada das mãos aos pés com o enforca gato. - Pensei.
Estava batendo a própria cabeça na porta maciça, já fazia um bom tempo.
Realmente não sei como ela aguentou.
Agachei, cheguei próximo à ela e tentei tirar os cabelos da frente do seu rosto. Ela rejeitou.
Não parava de se debater e não me deixava analisar a situação. 
Tranquilamente eu disse:
-Fique quieta! - Puxando-a pelo cabelo.
Na mesma hora, ela cessou. Estava exausta.
Sua testa em carne viva. O osso frontal estava quase exposto de tanto batê-la na porta maciça. Havia um rasgo bem no meio. Parecia uma vulva com lábios inchados.
Amordaçada, chorava compulsivamente. 
O olhar pedinte e brilhante, suplicava ajuda. Suas pupilas dilatadas, seu rosto mostrava dor e clemência. Soluçava enquanto tentava falar.
- Por favor.... me deixe ir....me deixe ir...por favor.
O cheiro úmido e frio do porão era nauseante. Pois ali, algumas semanas atrás, já havia retirado algumas partes do dorso de Lily, e os restos que não usei joguei fora. Porém esqueci de recolher o lixo. Que estava alguns metros de nós. 
Virei para trás e testemunhei com minha mão o que ela havia feito em minha porta maciça. Estava com avarias que precisavam de conserto. Além de estar toda ensanguentada e ter partes da testa dela grudados.
- Belo estrago heim, mocinha!? - Murmurei.
Segurei seu rosto com minhas duas mãos, ela o deitou como se quisesse descansar daquele pesadelo.
-Ei....ei...? - Disse ao procurar seus olhos nos meus.
Ela não me respondia e se retorcia sem parar.
Segurei com firmeza seu rosto, olhei bem no fundo de seus olhos e ao mesmo tempo que dividia a frase em pausas, eu batia com sua nuca na porta.
- Não ... bata ... mais ... a ... cabeça ... em ... minha ... porta!
(pow...pow...pow...pow...pow...pow...pow...pow...)
Levantei, peguei o molho de chaves do bolso e tranquei a porta.
Fui para a cozinha.
Os sons haviam cessado. Aguardei mais alguns minutos.
Enquanto fervia um pouco de leite, buscava alguns cookies de chocolate no armário. 
Com meu café da manhã em mãos, fui até a vitrola, liguei na ópera. 
Sentei em minha poltrona azul, e com o café da manhã e a ópera, tive uma belo momento de prazer.
Depois de um certo tempo, resolvi dar um passeio.
Me troquei, coloquei meu casaco, meu gorro, minha bota e fui em direção a porta da frente.
Nevava muito lá fora, o inverno estava no ápice.
Fechei o colarinho, pus minhas mãos nos bolsos e fui fazer meu passeio matinal pelo bairro. 
Sem motivo algum.
Ao caminhar, algo me chamou atenção em um poste. Me aproximei e comecei a lê-lo.
Era um anúncio procurando uma certa garota que havia desaparecido sem rastros no bairro. Com telefone e recompensa. 
Voltei a caminhar.
Observava com atenção as fumacinhas que saiam de minhas narinas enquanto descia a rua principal.